Sobre a Semana de Arte Moderna de 1922

“O modernismo, no Brasil, foi uma ruptura, foi um abandono de
princípios e de técnicas consequentes, foi uma revolta contra o que era a Inteligência
nacional. É muito mais exato imaginar que o estado de guerra na Europa tivesse
preparado em nós um espírito de guerra, eminentemente destruidor. E as modas
que revestiram este espírito foram, de início, diretamente importadas da Europa.
Quando a dizer que éramos, os de São Paulo, uns antinacionalistas, uns
antitradicionalistas europeizados, creio ser falta de subtileza crítica. É
esquecer todo o movimento regionalista aberto justamente em São Paulo e
imediatamente antes, pela “Revista do Brasil”; é esquecer a arquitetura e até o
urbanismo (Dubugras) neo-colonial, nascidos em São Paulo. Desta ética estávamos
impregnados. Menotti de Picchia nos dera o “Juca Mulato”, estudávamos a arte
tradicional brasileira e sobre ela escrevíamos; e canta regionalmente a cidade
materna o primeiro livro do movimento. Mas o espírito modernista e as suas
modas foram diretamente importadas da Europa” (Mário de Andrade – “O Movimento
Modernista” – Aspectos da literatura brasileira. São Paulo, 1974, p. 235-6).
Este ano de 2022 será marcado pelas comemorações do bicentenário
da independência nacional, o segundo grande movimento de constituição da Nação
Brasileira, que é precedido pela nossa conformação territorial, desde a chegada
dos portugueses à região onde hoje se localiza a comarca de Porto Seguro, até a
delimitação de nossas fronteiras pelo Tratado de Madrid (1750).
Em 25/03/1922 seria fundado o Partido Comunista Brasileiro, agrupamento
que manteria certa hegemonia na esquerda brasileira até o fim do regime militar
e o período da redemocratização, quando o PT passaria a ocupar o posto de
principal referência deste campo político.
Em 5 de Julho de 1922 ocorre o primeiro levante tenentista,
conhecido como “Revolta dos 18 do Forte de Copacabana”, marcha heroica
realizada por dezessete militares e um civil contra Epitácio Pessoa e a eleição
de Arthur Bernardes, e que postulava o fim da Republica Velha, que efetivamente
cairia oito anos depois, com a Revolução de 1930.
Entre os dias 13, 15 e 17 de Fevereiro ocorre a Semana de Arte
Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Foram três noites de conferências,
audições musicais e leituras de poemas, que tiveram como pretexto a comemoração
do centenário da independência.
Passados cem anos do evento que ficou conhecido como introdutor do
modernismo nas artes brasileiras, temos que a Semana ainda é cercada de alguns
mitos.
A despeito de sua inequívoca importância no desenvolvimento da
literatura, poesia, artes plásticas e arquitetura, é certo que o evento não produziu
grande repercussão e impacto na sociedade brasileira na década de 1920/30, período
em que era predominantemente agrária e iletrada.
Fora alguma repercussão na imprensa de São Paulo e Rio de Janeiro,
majoritariamente desfavorável, a Semana de 1922 passou despercebida para o
restante da população.
Consta que apenas na década de 1940, a partir de uma análise
retrospectiva daqueles eventos e, em especial, da palestra proferida por Mário
de Andrade no Itamaraty e artigos publicados pelo autor de Macunaíma no Estado
de São Paulo em 1942, é que a Semana de 22 foi alçada a grande momento de
modernização artística, de certa forma antecedendo a modernização política e
econômica da Era Vargas.
É certo que aquele movimento tinha como norte a oposição ao
academicismo e à arte puramente decorativa. O modernismo refletia as incertezas
sociais do contexto da I Guerra Mundial, da Revolução Russa de 17 e da ascensão
do fascismo na Europa ( a Marcha sobre Roma de Mussolini efetivamente ocorreu 9
meses após a Semana de 22).
Além disso, o novo grupo de artistas expressava as novas
realizações tecnológicas de fins do século XIX e início do XX: os automóveis
velozes circulando nas cidades, o advento do cinema, a fotografia, o telefone,
o gramofone, os bondes elétricos, a revolução causada pelo desenvolvimento da
aviação, implicaram num conceito dinâmico da arte associada à velocidade e à
simultaneidade, em oposição ao conceito estático tradicional, baseado no
equilíbrio e na ordem.
Contudo, outro mito que cerca o movimento é o de que teria havido
um rompimento com a orientação elitista de arte, desde o parnasianismo e do
simbolismo, contra o qual os novos artistas de fato se opunham.
As próprias condições sociais do país fariam com que aquele
movimento fosse produzido pela elite e para elite, ainda que poemas como “Ode
ao Burguês”, indicassem uma rebeldia em face das coisas existentes.
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Na prática, a Semana foi patrocinada por aristocratas de São
Paulo, em especial Paulo Prado, da tradicionalíssima família cafeicultora Silva
Prado. Igualmente, consta que o evento causou enorme prejuízo aos seus
patrocinadores.
Também não é inteiramente correto dizer que o movimento modernista
significa uma ruptura com as escolas literárias estrangeiras e a constituição
de uma arte inteiramente nacional.
Tratou-se antes de tudo de uma manifestação tardia de novas ondas renovatórias
da arte na Europa, no caso o futurismo italiano, o dadaísmo francês e o
expressionismo alemão.
Posteriormente, quando da redação do “Manifesto Antropofágico”
(1928) de Oswald de Andrade, esta dialética entre o estrangeiro e o nacional
seria mais bem equacionada. Baseando-se na história do Brasil colonial quando os
índios, em ritual de guerra, ingerem o estrangeiro, temos que o indígena, na
prática, incorpora elementos e atributos do inimigo, eliminando diferenças
entre eles.
O último e não menos importante mito que cerca a Semana de 22 é o
de que aquele evento teria constituído uma ruptura brutal com as tendências
artísticas anteriores. Talvez por isso, muitos classificam autores anteriores
ao movimento como “Pré-Modernistas”: Lima Barreto e Monteiro Lobato como principais
exemplos.
Na verdade, estes escritores de certa forma antecederam preocupações
dos modernistas, como o abrasileiramento e popularização da linguagem. O destaque
dos problemas cotidianos, as expressões populares e um certo regionalismo estão
presentes tanto em Lobato quanto em Lima Barreto, e se se desdobrariam em
versos como este de Oswald de Andrade:
“Dê-me um cigarro. Diz a gramática. Do professor e do aluno. E
mulato sabido. Mas o bom negro e bom branco. Da Nação brasileira. Dizem todos
os dias. Deixa disso camarada. Me dá um cigarro.”.
Aliás, é digno de nota que as famosas críticas de Monteiro Lobato
à Anita Malfatti datam de 1917, ou seja, cinco anos antes da Semana. Também é
certo que o escritor de Taubaté foi o primeiro a ser convidado pelos jovens modernistas
como patrono da Semana.
Por conta da recusa de Lobato, para quem o modernismo era “brincadeira
de crianças inteligentes”, foi escolhido o escritor Graça Aranha para desempenhar
o papel de padrinho do movimento.
Cem anos depois, olhando-se em perspectiva, verifica-se que a
Semana de 1922 foi um ponto de partida para o desenvolvimento de uma literatura
não acadêmica, regionalista e atenta à realidade popular, criando as condições
para a aparição de escritores como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José
Lins do Rego, João Guimarães Rosa, entre outros.
Bibliografia
CAMARGO, Márcia. “Semana de 22: entre vaias e aplausos”.
Paulicéia. Boitempo Editorial. 2003.