sexta-feira, 9 de julho de 2021

Contos de Machado de Assis

 Contos de Machado de Assis

 



Quando se analise a trajetória de vida de Machado de Assis, chama atenção a ascensão vertiginosa e pouco usual de um artista mulato, oriundo do morro do Livramento (RJ), que chegaria ao fim do século XIX reconhecido por unanimidade como o maior escritor do Brasil.

 

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839: seu pai era neto de escravos e sua família vivia como agregados, sob a proteção de uma viúva rica, que se tornou madrinha do futuro escritor.

 

Na infância trabalha como baleiro. Na adolescência sai da chácara e muda-se para a cidade, tornando-se aprendiz de tipógrafo. Autodidata, nunca teve formação escolar formal. Das suas primeiras publicações na imprensa fluminense nos de 1860, até a sua plena maturidade artística nos anos de 1880/90, obteve o reconhecimento do seus méritos literários, culminando na sua eleição como presidente da recém fundada Academia Brasileira de Letras, em 1897, função que ocuparia até a sua morte, em 29 de setembro de 1908.

 

Parece haver um consenso entre os estudiosos acerca de uma periodização da obra de Machado de Assis.

 

Os romances da chamada 1ª Fase como Ressurreição (1872), a Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878) se situam ainda dentro da 3ª Geração do Romantismo. São obras folhetinescas, destinadas ao público feminino urbano, que suscitam uma análise condescendente e conciliadora quanto às relações sociais vigentes e os problemas do amor. Ainda que haja de fato uma mudança substancial nos seus romances subsequentes, que inauguram no país o realismo literário, estas primeiras obras não perdem o interesse do leitor de hoje. Em muitos momentos antecipam a crítica social, o humor sutil e a ironia refinada dos trabalhos posteriores.

 

Sobre esta mudança de orientação na obra, opina Ivan Marques:

 

“Na juventude, Machado de Assis colaborou fartamente em periódicos como o ‘Jornal das Famílias’ e ‘A Estação’. Nessa época escreveu narrativas folhetinescas voltadas para o público feminino – segundo ele ‘as páginas mais desambiciosas do mundo’. As obras-primas do conto machadiano só viriam à tona após a ‘crise dos quarenta anos’ e o seu famoso renascimento como escritor. A mudança de fase, no começo da década de 1880, foi explicada por Machado com a afirmação de que ‘perdera todas as ilusões sobre os homens’. É a época dos contos-teorias, em que o autor analisa de modo crítico e pessimista temas como o egoísmo, o interesse que a tudo devora, os limites da razão e da loucura, a crueldade e o triunfo da aparência sobre a essência”.

 

De fato, em obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1899) e Quincas Borba (1891), o romance folhetinesco é abandonado, ganhando maior espaço o humor, a ironia  ou o patético, palavra de origem francesa que descrevo o que é ao mesmo tempo engraçado e triste.

 

O realismo revela o cinismo e a hipocrisia nas relações sociais: a realidade é feita de aparências e jogos de cena. No conto “Teoria do Medalhão” (Papeis Avulsos -  1882) um pai educa seu filho para que vença na vida, devendo seguir o conselho de não se afastar jamais das convenções sociais e sempre esconder o rosto que existe por trás da máscara.

 

O escritor fluminense escreveu e publicou cerca de 200 contos, que acabam também se diferenciando conforme as fases romântica e realista supracitadas.

 

O tema dos dilemas da consciência e a crítica dos costumes são antecipados em contos como “O Relógio de Ouro” (1873) em que um marido ciumento, ao descobrir um objeto desconhecido dentro de casa, acaba por ser desmentido pela realidade, já que o relógio fora entregue por um portador que portava o bilhete de uma Iaiá, e a traição fora descoberta por sua mulher.

 

Já no conto “A Carteira” (1884) os dilemas de consciência são retratados na hesitação do homem entre o agir ou não de forma correta. O dilema começa logo no início da história, quando o protagonista, endividado, encontra uma carteira na rua cheia de dinheiro:

 

“.... De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, em o conhecer, lhe disse rindo:

 

- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.

 

- É verdade, concordou Honório envergonhado”.

 

O protagonista faz a coisa certa e devolve a carteira ao seu dono, que por sinal é um amigo que frequenta sua casa. Mal sabia Honório que dentro da carteira havia um bilhetinho de amor deste seu amigo destinado à sua esposa, D. Amélia.

 

Bibliografia

 

“Contos de Machado e Assis” – Difusão Cultual do Livro

 

Imagem: Machado de Assis, Joaquim Nabuco e Francisco Pereira Passos reunidos durante almoço oferecido pelo general colombiano Rafael Uribe no Rio de Janeiro, 1906. Fotografia de Augusto Malta

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