“Luzia-Homem” – Domingos Olympio
Resenha livro - “Luzia-Homem” –
Domingos Olympio – Ed. Melhoramentos
“A desgraça endurece o coração. Por causa dela, os pais abandonam os
filhos; maridos desprezam as mulheres e as criaturas viram bichos, ou ficam
piores que eles. Para o fim do mundo, só falta que as mulheres não tenham mais
filhos, pois já ninguém ama”.
“Luzia-Homem” (1903) é certamente
o livro mais conhecido do escritor cearense Domingos Olímpio. A história foi
primeiramente publicada em capítulos num jornal carioca, quando o autor já
tinha atrás de si uma carreira consolidada de advogado, promotor e deputado
provincial pelo Partido Conservador.
A publicação deu-se um ano depois
do lançamento de “Os Sertões” (1902) de Euclides da Cunha. E o sucesso de “Luzia-Homem”,
história que versa sobre o drama dos retirantes do sertão cearense no contexto
da grande seca de 1877, pode ser explicado pelo interesse do publico, naquele
contexto, em torno do homem sertanejo.
Afinal, alguns poucos anos antes,
entre 1896/1897, ocorrera a Guerra de Canudos, que repercutira em todo o país
como movimento messiânico que desafiava a autoridade da recém proclamada
república (1889). E, certamente, o livro de Domingo Olímpio é também precursor
da literatura regionalista que despontaria a partir da década de 1930, da qual
são tributários: Graciliano Ramos, com suas descrições psicológicas de
retirantes e fazendeiros de Alagoas; José Lins do Rego e com o seu ciclo da
cana de açúcar descrevendo a Paraíba; Amando Fontes falando de Sergipe; Rachel
de Queiroz falando do Ceará; e Jorge Amado falando da Bahia.
Domingos Olímpio Braga Cavalcanti
nasceu na cidade de Sobral em 18.09.1850. Bacharelou-se em Direito na Faculdade
de Recife em 1873, na mesma época em que floresceu o movimento conhecido como
“Escola de Recife” do qual fizeram parte os professores Tobias Barreto e Sílvio
Romero. O escritor sobralense mudou-se do Ceará para Belém do Pará em 1879, ao
que consta, após alguns desentendimentos com a classe política cearense, quando
exercia o cargo de promotor público.
Na condição de deputado
provincial, defendeu o abolicionismo e o sistema republicano. Em 1891
transfere-se ao Rio de Janeiro, onde passou a contribuir com a imprensa local.
Além do conhecido romance, escreveu peças de teatro e colaborou com a imprensa.
Candidatou-se para vaga na Academia Brasileira de Letras mas foi preterido
poeta Mário de Alencar, filho de José de Alencar. Ao que consta, Olavo Bilac
votara a favor de Domingos Olímpio.
Luzia-homem é o nome da
protagonista. Mais propriamente um apelido atribuído pelo povo sertanejo, pelo
fato da mulher ter alguns traços masculinos, desde a sua altivez e
independência, até a forma como se vestia. Luzia-homem foi a forma como ficou conhecida essa
personagem que congrega a força e higidez física e a disposição ao trabalho
masculina, somada à beleza física e graça femininas.
A história se passa em Sobral, no
contexto da grande seca de 1877, e nela há descrição viva da miséria dos
retirantes. Aquela cidade servia como um entreposto do literal ao sertão – por ela
passavam aqueles que fugiam da seca, sujeitos à fome, à sede e às moléstias infecciosas:
“Vinham de longe aqueles magotes heroicos atravessando montanhas e planícies,
por estradas ásperas, quase nús, nutridos de cardos, raízes intoxicantes e
palmitos amarelos, devoradas as entranhas pela sede, a pele curtida pelo
implacável sol incandescente”.
Luzia-homem trabalha nas obras de
construção da cadeia pública na cidade. Passa a ser assediada por um soldado
chamado Crapiúna, que move uma perseguição amorosa contra a vontade da mulher, enviando
cartas e fazendo gracejos.
A protagonista recorre a um amigo
chamado Alexandre para defendê-la do assédio do soldado insolente. Despeitado,
Crapiúna decide vingar-se de Alexandre acusando-o de roubar comida e dinheiro do
armazém da comissão de socorro aos flagelados. Essa intriga irá resultar na
prisão de Alexandre. Luzia-Homem dedica-se a socorrer Alexandre para salvá-lo
da prisão injusta, nas visitas diárias irá desenvolver por ele o amor, no que é
correspondida. Ao término da história, a disputa dará ensejo a uma grande
tragédia de conteúdo passional, movido pela paixão e perversão de Crapiúna,
reproduzindo um estilo próprio da literatura naturalista.
“Luzia-Homem” é frequentemente descrito
como um romance naturalista. Há nele, de fato, passagens que remontam ao estilo
literário – a descrição das hordas e multidões de retirantes chegando em Sobral
poderia se equiparar à descrição dos tipos populares do Cortiço em Aluísio
Azevedo; a ideia naturalista do meio como fator determinante da conduta dos personagens
(determinismo) está presente em Luzia-Homem.
Mas há no livro de Olímpio
Azevedo algo que parece destoar do naturalismo.
A protagonista é alçada à
condição de heroína. Luta bravamente pela sua vida, ao final da obra. E em toda
a sua trajetória, revela a altivez e independência do sertanejo. Ela expressa o
sofrimento dos fortes que são resignados e crentes. A criação de uma heroína
mais remete ao romantismo do que ao forte comprometimento realista e de
objetividade do naturalismo. Não vemos heróis nos livros naturalistas de
Aluísio Azevedo, mas personagens vítimas do meio social e das suas próprias
paixões.
Mais do que um romance naturalista,
seria mais correto dizer que Luzia-Homem se trata de uma percussora da
literatura regionalismo da década de 1930, tal qual Franklin Távora com a sua “literatura
do Norte” e Inglês de Sousa com os seus “contos amazônicos”. Três escritores do século XIX que catam a
história da sua terra, respectivamente Ceará, Pernambuco e Pará.
