quinta-feira, 7 de maio de 2026

“Lavoura Arcaica” – Raduan Nassar

 “Lavoura Arcaica” – Raduan Nassar




Resenha Livro - “Lavoura Arcaica” – Raduan Nassar – Ed. Livraria José Olympio

“Lavoura Arcaica” (1975) foi o livro de estreia Raduan Nassar, publicado quando o escritor já tinha 40 anos de idade. Foi imediatamente reconhecido como escritor de valor incomum, senão pelo grande público, ao menos pela crítica especializada. Já no ano subsequente ao lançamento do livro, Nassar ganhou premiação na Academia Brasileira de Letras, essa que é, ao menos formalmente, a principal instância de consagração literária do Brasil.

Depois da sua estreia meteórica, o escritor publicaria apenas outros dois romances. No auge da sua fulminante trajetória, decide abandonar a literatura para se dedicar à agricultura no interior de São Paulo.

Uma explicação dada pelo próprio escritor é que tudo aquilo que tinha para dizer já fora contemplado nesses poucos romances. “Lavoura Arcaica”, certamente o mais conhecido deles, foi adaptado para o cinema no ano de 2001, a despeito das enormes dificuldades de traduzir um texto altamente intimista e poético para a linguagem do cinema, amparada predominantemente na ação.

Os fatos, os eventos e o enredo não são os elementos mais decisivos do romance; eles se misturam e se embaralham com os sentimentos e emoções do narrador, despontam de maneira acessória porquanto a intenção do autor não é “contar uma história” mas expressar o fluxo do pensamento do personagem principal.

Neste sentido, o escritor não utiliza da pontuação: há capítulos de até 4 ou 5 páginas de uma mesma frase, sem o ponto final, destacando essa simultaneidade de eventos e emoções que caracteriza o fluxo do pensamento.

O narrador não conta apenas o que viu ou o que presenciou. Ele comenta, sempre dentro da mesma oração, o reflexo desses fatos na sua alma, como sente o mundo, faz questionamentos e reflexões existenciais no mesmo ato de contar a história, sempre dentro de uma mesma frase. Ao relatar o que disse a um interlocutor, também afirma o que pensava naquele momento e o que quis falar mas deixou de dizer. Ao lado de diálogos, faz monólogos. Reproduz aquele fio eterno de continuidade que marca o pensamento do ser dotado de consciência.

Há nessa experimentação um forte componente poético do texto. Algumas passagens do romance podem ser lidas como versos de um poema, sempre observando a orientação geral das frases longas, em que coexistem, dentro de uma mesma oração: diálogos, monólogos, reflexões filosóficas, pensamentos íntimos e, por último, os eventos.  

O enredo propriamente dito remonta à história bíblica do filho pródigo. Aquele que abandona o lar familiar em busca do gozo para depois exercer o arrependimento e ser acolhido pelo pai através do perdão. Com algumas diferenças do conto bíblico, como veremos.

André, o protagonista, abandona a fazenda onde mora com a família para residir numa pobre pensão na cidade. É movido pelo desejo de liberdade, pela revolta em torno da figura opressiva do pai, o patriarca que dita as regras no seio da família. Sentados na mesa de jantar, os filhos e a mulher estavam diariamente sujeitos aos sermões do chefe de família. Todos trabalham na lavoura, estão obrigados a observar a disciplina, a austeridade e a moralidade do patriarca.

Em “Lavoura Arcaica” o filho pródigo rompe com a família, mas seus sentimentos não se reduzem apenas à revolta contra a autoridade e a tradição. Ao expressar através da linguagem o fluxo de pensamento do narrador, vemos em André os mais desejos contraditórios: medo de abandono do pai, desejo de aceitação da família, saudades do afeto da mãe, ódio contra o convencionalismo da família, saudades da natureza do campo, desejos sexuais inconfessáveis. A essas circunstâncias se soma o amor incestuoso que o protagonista sente por uma de suas irmãs: esse sentimento bestial é revelado nos diálogos com o irmão mais velho e, ao final da história, esse amor proibido conduzirá à tragédia do filicídio, ao assassinato da filha Ana pelo patriarca.

Enquanto a primeira parte do livro “A Partida” trata da fuga da fazenda à cidade e da tentativa de o irmão mais velho levar consigo André de volta para família, na segunda parte chamada “O Retorno”, temos a volta do filho pródigo. Tal qual a história bíblica, a família igualmente decide realizar uma festa para comemorar o retorno.

Mas, como dito, há algumas diferenças importantes entre as duas histórias.

 A mais importante delas é que o sentimento de indiferença de André em relação ao perdão do pai. Diferentemente da parábola bíblica, o diálogo final de André com o genitor não revela o arrependimento pela fuga de casa, a despeito do perdão paterno. O que existe é a mais completa inexistência do entendimento: um diálogo em que o filho expressa seus sentimentos mais íntimos sem a mais remota compreensão do pai.

Ressalvado o uso abusivo do termo, pode-se dizer que "Lavoura Arcaica", escrito em 1975, antecede aquilo que ficou conhecido como “pós-modernidade”. O fim das ideologias dominantes do século XX dá lugar à perda de referências, à crise de tudo aquilo que conferia algum sentido coletivo ao homem, a família, a sociedade e o estado.

O protagonista vive a experiência de solidão brutal daqueles destituídos de vínculo de pertencimento. A pós modernidade é o rompimento com tudo aquilo que é teleológico. Essa falta de sentido, de finalidade da vida, é sanada em um dos sermões do pai: o essencial é olhar o mundo sem questionar jamais os desígnios insondáveis dos acontecimentos.

sábado, 2 de maio de 2026

“Memórias de Martha” – Júlia Lopes de Almeida

 “Memórias de Martha” – Júlia Lopes de Almeida





Resenha Livro - “Memórias de Martha” – Júlia Lopes de Almeida – Ed. Principis

Pouco conhecida nos dias de hoje, a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida foi a mulher mais lida do Brasil da Primeira República. Contemporânea de Machado de Assis e Aluízio de Azevedo, foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, principal instância de consagração literária do Brasil.

Por outro lado, assim como Lima Barreto, a escritora teve de lidar com as terríveis vicissitudes relacionadas aos preconceitos da época. Barreto por ser negro, lidou e descreveu em seus livros o desprezo e a discriminação seculares relacionados a um país recém egresso da escravidão. E Júlia Lopes, por ser mulher, teve que arcar com dificuldades relacionadas ao momento histórico, quando a literatura era uma atividade exclusivamente masculina.

Numa entrevista concedida a João do Rio em 1905, Júlia Lopes conta que na adolescência fazia versos escondida: fechava-se num quarto, abria a secretária, escrevia seus poemas e silenciosamente os guardava na gaveta fechada à chave.

Esta experiência irá posteriormente se expressar nos seus livros, marcados por um estilo intimista. Sua literatura tem sempre uma atmosfera de interiorização, como se ela escrevesse voltada para dentro. Tal qual a adolescente trancada num quarto, fazendo algo que àquela época era inadmissível a uma mulher.

“Memórias de Martha” (1899) é um romance representativa dessa orientação introspectiva. Além de narrar a história de uma jovem que reside num cortiço do subúrbio carioca, os eventos se combinam com a sondagem dos sentimentos e emoções mais profundos da protagonista.  Martha por meio das suas memórias, narrando em primeira pessoa, irá contar o que viu, o que viveu e, mais importante, o que sentiu.

Suas primeiras memórias da infância despontam um evento trágico. O pai de Martha era um caixeiro viajante e numa de suas viagens de trabalho, perde acidentalmente um dinheiro que não lhe pertence. Humilhado pelas insinuações de que fosse um ladrão, decide se enforcar dentro de casa. A morte do chefe de família conduz Martha e sua mãe à situação de extrema penúria: são despejadas da casa onde moravam por falta de alugueis e obrigadas a morar num cortiço, onde grasse a pobreza e a contaminação pelo sarampo e difteria.

A lembrança do corpo do pai estendido no chão da sala lhe causa indiferença na vida adulta; por outro lado, a conexão da protagonista com sua mãe é profunda, o amor pela genitora é fruto do desvelo com que é cuidada, do sacrifício com que a viúva servia a filha, trabalhando arduamente para manter Martha na escola, lavando roupas para fora, adoecendo e envelhecendo pela filha.

Era o amor sincero de uma alma angelical: essa mãe, mesmo desfalecida pelo trabalho árduo, chegava aos mais extremos sacrifícios pela filha. Quando Martha, ainda criança,  caiu gravemente doente, sua mãe “enlouquecida, não me desamparava....velava assídua noite e dia, por sua pobre doentinha, evitando o menor golpe de ar, proporcionando todo o possível conforto”.  

Além dos eventos da vida doméstica, da realidade do cortiço, das aulas na escola, das brincadeiras de criança no cortiço, do trabalho como professora e do casamento por conveniência, Martha também narra os seus sentimentos, revela sua percepção sobre si própria, dentro daquela orientação introspectiva que remonta à literatura feminina: de Clarice Lispector a Adalgisa Nery, são muitos os exemplos de romances e contos em que os eventos ganham menos importância do que a forma com que eles são percebidos e interpretados pela alma feminina. Trata-se de espíritos dotados de uma sensibilidade extremamente sutil, às vezes dilacerante, que produz a emotividade e traduz alguns sentimentos íntimos ignorados pelos homens.

Martha tem uma visão autodepreciativa do seu corpo: em diversas passagens da história revela se sentir envergonhada de si própria, do seu jeito retraído e das suas roupas. Sente uma revolta contra a sua aparência banal e desinteressante por ela não traduzir a beleza e complexidade de sua alma.

Martha é extremamente escrupulosa consigo e com o seu passado. Não hesita em revelar seus erros e até mesmo algumas pequenas imoralidades: por exemplo quando exigiu da mãe num contexto de pobreza extrema a compra de uma boneca cara, igual a de uma vizinha rica. Ou quando abandona sua melhor amiga da escola, após a descoberta de um furto que leva essa colega ao isolamento e expulsão do colégio.

No amor, Martha também não deixa de expressá-lo sem se preocupar em omitir o seu fracasso. Nunca fora cotejada, chegou-se a apaixonar por um homem após uma breve troca de olhares, para depois descobrir não ter sido correspondida. Apenas aos 24 anos de idade, recebe uma proposta de casamento: mas vinda de um homem muito mais velho, que faz o pedido diretamente à mãe, sem nunca ter travado qualquer relação com a protagonista. O típico casamento convencional daquela época (1900).

Martha aceita o casamento sem um pingo de entusiasmo. Afirma que aceitou o matrimônio como uma forma de se vingar de si mesma: todo o ultraje que sentiu na sua imaginação de moça quando confrontada com a rejeição e sua inaptidão em atrair o interesse dos homens poderia ser agora “vingado” por um casamento convencional, e isso pouco tempo depois de ter um diagnóstico de histeria, o resultado mais típico da mulher que não recebe o amor do homem.

O fim das memórias coincide com a morte da mãe de Martha, qualificada por ela em diversas passagens do romance como uma “amiga”, muito mais do que propriamente uma ascendente. A relação de ternura entre ambas sugere antes um vínculo de irmãs do que de mãe e filha.

A morte dessa mãe e “amiga” é fruto da exaustão com que trabalhou lavando roupas no cortiço para dar um futuro à Martha. A morte ocorre logo após o casamento da protagonista e sugere, ao final da história, que a mãe/“amiga” apenas sobreviveu o suficiente para ver sua filha em situação de cuidado no matrimônio. Depois expirou aliviada por ter cumprido a sua missão.

O livro, a despeito da sua orientação intimista, ainda segue dentro dos quadrantes do realismo literário.

Não há idealizações, a linguagem é simples e o estilo é objetivo; a temática envolve a descrição da realidade do subúrbio carioca, há incidentalmente a crítica social da literatura realista, menos em torno da “questão feminina” e mais em torno das desigualdades sociais e da pobreza do cortiço. Não há nenhum indício de “idealização” do passado, dada a forma extremamente escrupulosa com que a narradora conta o seu passado, quase de forma impessoal. Essa combinação entre objetividade e introspecção, fatos e sentimentos, revela o que há de melhor no romance.